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segunda-feira, 3 de outubro de 2011


Ela não obedecia seu pai, não obedecia sua mãe, mal respeitava seu irmão. Não tinha amigos. Não se prendia a ninguém. Nem a algum lugar.
            Ela era do mundo.
            Seu cabelo vermelho arrepiado chamava atenção, suas tatuagens também, mas ela não se importava com isso. Aliás, ela não se importava com nada.
            Sua falta de dinheiro, a asma e a ligeira falta te coordenação motora eram meros detalhes, nada que a impedisse de fazer tudo que queria. Tudo.
            Aprendera a surfar e quase se afogara. Saltara de para-quedas e desmaiara. Não importava. Sempre quisera fazer isso.
            Agora ela viajava pelo mundo. Desertos, ilhas, mares, céus; do ocidente ao oriente, do norte ao sul.
            Ela queria conhecer o mundo, conhecer as pessoas e deixar que as pessoas a conhecessem, que o mundo a conhecesse. Queria ver e sentir o mundo, e queria que o mundo a sentisse. Que ele a admitisse, como muitos não faziam. Queria sentir tudo ao mesmo tempo.
            Ela era do mundo.

sábado, 16 de julho de 2011

Amigo

-Você é meu amigo?
-Não.
-Não?
-Não.
-Então por que dizia que era meu amigo?
-Não dizia.
-Dizia.
-Dizia que adoraria ser seu amigo.
-Então…
-Então.
-Você não quer mais ser meu amigo?
-Quero.
-Então?
-O quê?
-Então você é meu amigo. Se quiser ser, é.
-Não é tão fácil assim.
-Claro que é.
-Não.
-Diga que é meu amigo. Eu o considero assim.
Houve uma pausa.
-O que acha que é ser amigo? –ele perguntou.
-Hum… ser… amigo, estar junto… contar segredos…
-Hum.
-Por quê? O que é ser amigo pra você?
Outra pausa.
-Hein? O que é? –ela insistiu.
-Não sei.
-Como não sabe? Você não tem outros amigos?
-Não.
-Como não?
-Não posso ter uma coisa que não conheço. Não posso dizer que sou seu amigo se eu nem ao menos sei o que é amizade. Não posso dizer que sou amigo. Posso dizer que adoraria ser.
Ela pensou um pouco antes de responder.
-Eu sei o que é amizade.
-Que bom.
-Aham…
-E você gosta dos seus amigos?
-Sim. Amo todos eles.
-Que bom. E…
-Diga.
-Você sabe o que é amor?
-Sei – dessa vez ela já tinha uma resposta pronta. – É querer estar com uma pessoa toda hora. É pensar nela sempre. É confiar e ser fiel a ela. É fazer de tudo para estar ao lado dela. Respeitá-la. E mais algumas coisas.
-E você sente tudo isso por todos os seus amigos?
Ela ficou quieta por muito tempo.
-Talvez – respondeu por fim. – O que é o amor pra você?
-Não sei.
-Você não sabe nada, não é? – e riu. – Você sabe quem é ao menos?
-Não.
Ela parou de rir e o olhou sorrindo.
-Como assim?
-Não sei quem sou.
-Como não sabe? Nome, sobrenome, data de nascimento…
-Isso é apenas físico.
-E…?
-Eu não sou o físico. Não só o físico.
-Não entendi. Explique.
-Eu também não sei. Quando descobrir lhe conto.
-Tudo bem – disse ela dando de ombros. – Mas o que exatamente você quer?
Ele suspirou e se levantou. Antes de partir colocou as mãos no bolso e disse:
-Me encontrar.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Mais um daqueles



            Bom, hoje foi mais um dia daqueles. Daqueles em que tenho tantas ideias que dá dor de cabeça. Daqueles em que tenho ideias incríveis, mas não consigo escrevê-las. Vejo tudo quando fecho meus olhos (ou até de olhos abertos).

            Vejo o ambiente, a grama que precisa ser aparada, a árvore com um balanço quebrado, o portão de ferro enferrujado, o muro cheio de limo. Vejo a rua de pedras, vejo a casa branca cheia de colunas, as janelas de vidros foscos, as flores murchas no parapeito da janela da cozinha, por onde também vejo uma mulher cantando e cozinhando. Sinto o vento quente e olho para o céu, vai chover. Ouço as risadas daquela menininha na varanda, ouço um chato e insistente apito tocar de cinco em cinco minutos. Acompanho a mulher na cozinha, triste porque sei que ela ficará pouco aqui, como a menininha risonha. Quase sinto pena dela, quase tenho vontade de dizer a ela que não saia de casa, ou que não leve a menina. Vejo quando ela se irrita pela comida ter queimado e quando sai da cozinha chamando a filha. Quando sai da casa com a pequena e vai até a garagem. Não, eu não vou dizer para que ela fique. Não daria certo.

            Eu vejo tudo, eu quase sinto o cheiro das flores esquisitas. Mas não saem palavras. São apenas flashes, não são reais, eu sei que não. E quando tento tornar real, palpável, em forma de palavras… eu não consigo. Eu sorrio quando a imagem da menininha aparece na mente. Mas não me conformo de que não consiga passar isso para o papel.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Ideias

            Há poucos dias tive uma ideia (mais uma) que achei tão boa que logo comecei a escrever. No primeiro dia consegui marcar um recorde meu de palavras por dia 2.348 palavras. Todas elas (felizmente) me agradaram e expressaram exatamente o que eu queria.

            É praticamente a história de um Anjo (eu sempre acreditei na existência deles por minha formação católica) um tanto rude. Ele tem a missão de salvar as pessoas que sofrem; basicamente ele tem de convencer suicidas a não se matar. O problema desse Anjo é que ele não dá a mínima para as pessoas, não se importa se realmente vão morrer ou não; mas cumpre seu trabalho porque é obrigado. Invisível aos humanos, ele não pode tocá-los, se o fizer, deixa de ser Anjo.
            Ele está sentado numa ponte, admirando as sombras disformes da água e ausência de sua sombra — Anjos não a possuem — quando uma mulher se prepara para pular. Ele tenta convencê-la, falando com sua consciência, mas ela insiste. Para o Anjo, aquela seria apenas mais uma morte entre todas que ele já presenciara, mas, naquele momento, ele não poderia perder mais uma alma… seria caçado por Anjos descontentes com sua longa lista de almas não salvas… se ele encostasse nela deixaria de ser Anjo, perderia seus poderes, talvez até ganharia uma sombra… se tornaria um humano, mortal. Se a deixasse cair e morrer, seria caçado até a morte, e os Anjos caçadores gostam de brincar com a comida antes da refeição.
            Ele toma uma decisão que vai mudar toda sua vida e incomodá-lo muito. Ainda há esperanças de retornar ao normal para ele, mas… será que ele vai conseguir?